segunda-feira, 21 de junho de 2010

Hierarquia nas culturas

Hierarquia
Quando pensamos sobre um conceito para hierarquia, a primeira coisa que vem a nossa cabeça é sobre as relações de autoridade, que se estabelecem entre superiores e subordinados. Quanto maior as diferenças sociais, maiores serão os efeitos dessa subordinação no desenvolvimento geral de uma cultura.

A cultura capitalista permite muitas formas de administração

Nosso entrevistado para fazer uma abordagem sobre as influencias da hierarquia nas diferentes culturas é o Sociólogo-Mestre Alexsandro Araújo e professor de Geopolítica da UDC em Foz do Iguaçu.

O professor Alexsandro nos apresenta uma leitura capitalista para a cultura, nela a indústria cultural se encarrega de negociar a produção, interferindo em todas as etapas do processo. Dentro desse meio a hierarquia atua como ferramenta de seleção das pessoas, na aplicação das regras e também na definição dos papéis sociais dos indivíduos em uma sociedade.

A Cultura é hierarquizante, de que maneira?
Toda cultura é por definição hierarquizante. Quando ela seleciona, defini, estabelece procedimentos, impõe regras, ela está hierarquizando. Quando se estabelece critérios de idade, quando se defini papéis sociais, quando se afirma o que pode e o que não pode, temos aí hierarquias.
Algumas culturas são dominadas de diferentes formas

Quando levamos em consideração apenas as relações entre os sujeitos, constatamos as mais diversas formas de hierarquias advindas daquilo que foi convencionado culturalmente. A cultura é hierarquizante por definição, logo, ela é reacionária.

Como a existência de hierarquias prejudicam as relações em uma sociedade democrática?

Antes de tudo devemos nos perguntar se sabemos o que é democracia. Não vivemos de forma democrática e acho até que muitos de nós não conseguiria viver em uma sociedade democrática. Pode não parecer, mas uma vida democrática exige muito de cada um, exige comprometimento com certos princípios, sobretudo com aqueles princípios que requerem de nós tolerância com a diferença (ou com o diferente).

Uma vida democrática se encontra mais próxima de uma experiência com a natureza do que com a cultura. Diria que só a natureza é democrática. Não vejo as culturas como espaços democráticos. Democracia e caos andam muito próximos.

Qual a sua definição para cultura popular e cultura de massa, e qual a relação entre elas?

Eu não tenho uma definição própria para nenhum dos dois conceitos. Esses são conceitos correntes na literatura das ciências sociais. Devemos à Escola de Frankfurt a criação de conceitos como indústria cultural, cultura de massa, entre outros. Comumente chamamos de cultura de massa aqueles aspectos da cultura produzida para a população em geral, sem que sejam levadas em conta as diferenças sociais, étnicas, etárias, sexuais...
Trata-se basicamente daquilo que é veiculado pelos meios de comunicação de massa. Nesse sentido, entende-se por cultura de massa aquelas manifestações culturais produzidas de forma genérica para o “povo”, mas, sem nunca se interrogar quem faz parte desse “povo”, quem é esse “público”. Diz-se também que a cultura popular é a cultura de um “povo”, a cultura que nasce como resultado das interações contínuas entre pessoas de determinada região. Neste sentindo, ela abarcaria várias áreas: crenças, artes, moral, linguagem, idéias, hábitos, tradições, usos e costumes, artesanato, folclore, etc. De fato, eu não sei se é possível hoje fazemos uma diferenciação tão clara entre uma e outra. A meu ver o que temos é uma só cultura, usando uma expressão de Felix Guattari, a cultura capistalística. Uma cultura que se mostra presente em todos os campos de expressão.

No Brasil, a classe dominante reconhece e valoriza a cultura popular ou apenas se aproveita do que lhe interessa?

Em geral há uma associação entre cultura popular e classes subordinadas que, como resultado de certas operações de poder, seria pensada como inferior. Essa maneira de pensar não me agrada muito. Eu entendo que a forma como abordamos o conceito de cultura deve mudar de foco. O que quero dizer com isso? Como afirmei acima, há hoje uma só cultura, a cultura capitalística, e ela domina a nossa produção cultural. Não existe uma cultura a priori, anterior ao tempo, trata-se sempre de cultura produzida, reproduzida, modificada, e como resultado disso o que temos é um campo de lutas entre diferentes grupos sociais em torno de quem pode ou não impor o significado.

Incomoda-me esses teóricos que colocam certos grupos na posição de vítima. Não há posição mais indigna do que a de vítima, sobretudo quando o grupo assume essa postura. Gosto de pensar em termos de confrontos: há grupos em confrontos, e tanto um quanto o outro se aproveitam do que pode para ganhar espaços.
Como a educação fundamental influência na formação cultural de uma nação?

Eu diria que de forma expressiva. A educação transmite os aspectos que são interessantes para manutenção da nação e eu não consigo dissociar nação de Estado, ou seja, a educação cumpre o papel que o Estado lhe dar. O Estado transmite aquilo que lhe possibilita exercer um controle mais fácil. A educação cumpre o seu papel, e o papel dela numa sociedade como a nossa é servir de mecanismo de controle – controle das ações, do saber, do pensamento, etc.

Tenhamos por um momento como referência as escolas. A gente se engana quando pensa que o tipo de educação que recebemos nas escolas traz em si alguma função libertadora ou esclarecedora no sentido de tornar cada sujeito alguém capaz de entender claramente o que se passa no mundo e o que determina nossa relação com ele.

É Foucault quem fala dos corpos dóceis. E as escolas funcionam como fábricas de corpos dóceis. Para que se entenda melhor, um corpo dócil é um corpo que se fábrica conforme as necessidades do Estado e do seu funcionamento. Com a utilização de certas ações disciplinares um corpo pode ser manipulado, treinado e controlado e o que temos é um corpo submisso e exercitado. Essa disciplina que produz corpos dóceis é uma forma de dominação. Por meio de métodos coercitivos, disciplinares, obtém-se um corpo tanto mais obediente quanto útil. Enfim, seriamos livres se não existissem escolas.

Como a presença de uma cultura estrangeira – filmes, novelas, imprensa - prejudica no desenvolvimento da identidade de uma outra nação?

Devemos entender que a cultura não é estática, ela encontra-se sempre em movimento: invenções dos mais diversos tipos, a difusão espontânea ou forçada de aspectos culturais de uma sociedade para outra, são exemplos dos mecanismos que podem possibilitar a dinâmica cultural. Há, com certeza, mudanças em todos os sentidos, algumas possibilitam melhoras e outras pioras nas relações sociais. Mas sempre há conflitos, sobretudo em tornos dos interesses envolvidos.

O conceito de identidade não é um conceito fácil de ser trabalhado. Sobre a importância e as implicações do conceito de identidade eu tenho mais perguntas que respostas: será que o que determina um comportamento é a ligação com uma identidade? Quais as implicações dos regulamentos que cada identidade traz na construção das relações? Será que aquilo que dá sentido ao que somos se encontra vinculado a obediência a um conjunto de códigos de um grupo específico, uma ideologia, uma crença, uma política? Será que é a identidade que nos permite viver?

Como as relações estão se apresentando, como as formas de vida estão sendo experimentadas, penso que a maneira como os sujeitos, os grupos e as sociedades organizadas em torno das identidades são mais produtores de desordens do que aqueles sistemas que estão tentando se organizar e se desenvolver fora deste esquema de identificação.

A indústria cultural promove ou prejudica a formação da cultura popular?
Segundo teóricos como Adorno e Horkheimer os produtos advindos da indústria cultural tendem a fetichização e são consumidos porque são considerados um sucesso e não pelo fato de possuírem alguma qualidade estética intrínseca, o que seria ruim. Entretanto, e isso é um ponto delicado dessa teoria, tal forma de pensar pode desaguar em um elitismo tão perigoso quanto aquilo que tenta combater, pois ao comparar a passividade do consumidor à uma atitude reflexiva saída de uma “cultura erudita” eles desconsideram o fato de que essa produção pode e é apropriada em diversos sentidos pelo consumidor.

A indústria cultural domina todas as etapas do processo

A arte não tem a função de salvar nada nem ninguém, ela não possui um significado por si, para que ela adquira sentido devemos valorá-la. Sendo assim, gosto de entender a arte como algo que deve ser fonte de vida e de força, não de fraqueza e coisas melosas.

Em tempos no qual a mídia e grande parte dos artistas servem apenas a eles mesmos, o controle das formas de expressão é a melhor maneira de subjugar os sujeitos. Alguém sem informação não consegue pensar para além do pouco que conhece. Quanto mais miserável é o meu mundo, mais limitado eu sou. Tornar-se ao menos um pouco culto é abrir-se para a possibilidade de criação de novas formas de ser e ver o mundo no qual estamos inseridos. Sem isso estamos fadados a uma vida pobre. Muitos precisariam de aulas para compreender a riqueza do que é dito, por exemplo, em um filme como Matrix, que é produto da indústria cultural.

É certo que há muitos interesses sacanas, gananciosos e mesquinhos por trás da promoção de uma cultura mercadológica, isso todos sabemos (ou deveríamos saber), entretanto, o maior problema se encontra no fato de que com ela nossas medidas de comparação ficaram embaralhadas, ou seja, estamos confundindo aquilo que possibilita vida com aquilo que nos deixa satisfeitos (numa espécie de satisfação efervescente e refrescante).
Mas o problema é muito maior, tem a ver com a forma como o capital está consumindo nossas vidas. Numa sociedade como a nossa, na qual a maioria das pessoas vive como escravos em trabalhos desconfortáveis e sem significado algum além do salário, em função rotineiras e cansativas, tendo que refazer isso durante a semana, o mês, o ano inteiro, em média oito horas por dia, não vai fazer tudo isso com prazer e alegria.
E mesmo que o salário seja bom ele não ameniza o sofrimento dessa rotina. Pessoas que se encontram numa situação assim, quando param para descansar ou relaxam procuram um entretenimento fácil. Infelizmente a grande maioria das pessoas, independentemente da idade, satisfazem-se com coisas idiotas e porcarias fáceis de consumir.

Por Nilton Rolin e Bruno Zanette

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